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quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Não entendo de Clarice Lispector

Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma bênção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos entender que não entendo.

Um olhar criativo de Teresa Pinto




"Pode ser-se criativo na resolução dum problema, na maneira de pintar as paredes ou uma tela, no escrever dum livro, … mas criatividade está também na maneira como olhamos para os ojectos no nosso dia-a-dia, mesmo os objectos mais banais. Tome-se um simples pedaço de queijo como exemplo. Raspar o queijo, um simples acto, na preparação de um prato simples. Pode ser-se muito criativo na maneira de colocar a raspa do queijo no esparguete: em montinhos, em quadradinhos, inspirados num quadro de Mondrian,… mas ainda mais criativo achei o comentário da Sharon, tinha ela os seus três anitos, quando olhou para o pedaço de queijo que estava em cima da banca: ó mama, que lindo! Parece o mar! E foi assim que nessa dita noite tivemos esparguete com ondas para o jantar. Mas por mais bonitas que possam ser, o que é que têm as 'nossas' idéias criativas a ver connosco? O que é que nos faz pensar que somos nós os criadores das novas ideias e actos? O conceito de criatividade é simples mas também paradoxal. Já alguma vez te aconteceu ter uma ideia 'original', extremamente criativa e um dia lês num livro que uns três séculos antes já alguém havia tido a mesma ideia? Ou fazeres uma combinação de cores, uma mistura de pigmentos tão única, tão original, tão criativa e mais tarde vais encontrar essa mesma cor, ou muito parecida, na parede da casa dum amigo ou numa revista de decoração? Mas quer as ideias sejam nossas ou andem a pairar pelo éter (o que eu deixo agora aqui fora de questão), o mais importante é descobrirmos que podemos desfrutar tanto dessas criações. Porque se tens a idéia de que não podes criar, podes pelo menos e com toda a certeza, desfrutar do que já foi criado. Mesmo dum simples pedaço de queijo."

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012